Cabeças marcadas pelo tráfico:Nas favelas dominadas por facções criminosas, uma lei própria
impera: mulher que trai o marido, briga, é homossexual ou faz qualquer
coisa que desagrade o comando é condenada a ter o cabelo raspado. A cabelereira Silvia Regina Evangelista foi surrada e ficou careca a mando do ex-namorado, que cumpre pena por tráfico. (ENTENDA O CASO)
"Carlos Renato ficou surpreso porque a mulher
o denunciou por ter raspado a cabeça dela"
Jorge Veloso, delegado
o denunciou por ter raspado a cabeça dela"
Jorge Veloso, delegado
As
cenas eram fortes. Especialmente para uma garotinha de um ano de idade.
A porta da casa foi arrombada. Duas mulheres e três homens entraram e
arrastaram a mãe do bebê, Silvia Regina Evangelista, aos tapas e
pontapés para fora de sua casa — deixando para trás a menina de olhinhos
assustados. Silvia foi levada até um matagal na Favela do Arrastão, na
região metropolitana do Rio de Janeiro. Ali, foi surrada a pauladas e teve seus cabelos longos, lisos e pretos totalmente raspados. A sessão de tortura era a aplicação da pena prevista em uma espécie de “Código Penal” dos traficantes do Rio de Janeiro. Mulher que abandona o marido na cadeia é condenada a ser espancada e a ter os cabelos raspados. Os algozes dela eram: a ex-sogra, a ex-cunhada e três comparsas — todos agindo a mando do ex-namorado, Carlos Renato.
Ele
ordenou a ação de dentro do Presídio Muniz Sodré, em Bangu, onde cumpre
pena por tráfico de drogas. É acusado de ser integrante da facção
criminosa Comando Vermelho. O crime contra Silvia foi o desfecho de uma
relação que envolveu mais conflitos do que amor. O relacionamento durou
dois anos, entre rupturas e reconciliações.
A gravidez aconteceu nesse conturbado contexto e Silvia não tem certeza de que Carlos Renato seja o pai da criança.
Na versão dela, o envolvimento dele com o tráfico ocorreu durante o
romance, depois que ele abandonou o mal remunerado emprego em um
ferro-velho. Foi então que o comportamento do rapaz mudou. “Nos
primeiros três meses, ele era carinhoso e fomos morar juntos. Depois,
começou a se revelar. Ia para a rua e me deixava trancada em casa,
chegava bêbado e queria me agredir”, diz Silvia. A prisão de Carlos
Renato, pego em flagrante com drogas, teria sido o estopim da separação.
Silvia diz que nunca quis ser mulher de bandido e que não era mais
feliz com o namorado. “Fui visitá-lo três ou quatro vezes na cadeia. Da
última vez, ele me tratou muito mal, começou a me xingar, discutimos. Eu
estava grávida e quase perdi o bebê. Fiquei três dias no hospital.
Depois disso, não quis mais saber dele, voltei para a casa da minha
mãe”, afirma Silvia, que, ironicamente, trabalhava como cabeleireira
antes de ter a cabeça raspada. Descontente com o abandono e disposto a “resolver” o assunto, Carlos Renato recorreu ao castigo aplicado pela própria mãe.
Denunciado
por Silvia, ele demonstrou uma única consternação. “Carlos Renato ficou
muito surpreso por ela ter procurado a polícia”, afirma o delegado
Jorge Veloso, da 74a Delegacia de Polícia do Rio, em Alcântara. “Ele
achou que ela ‘arquivaria’ a agressão, ficaria no âmbito do
constrangimento e só. Jamais imaginava que a coisa tivesse essa
repercussão, que ele fosse acusado de tortura e sequestro.”
O crime de Carlos Renato é bárbaro. E barbaramente corriqueiro nas favelas fluminenses.
Há uma série de condutas que podem desencadear esse tipo de castigo em
uma favela comandada pelo tráfico: traição (ou mesmo apenas suspeita de
traição), rompimento de namoro, briga entre moradoras na favela,
mulheres que visitam parentes em comunidades dominadas por quadrilhas
rivais, briga de mulheres por um homem, homossexualidade feminina e
qualquer outra coisa que possa ser feita por uma mulher e considerada
inadequada pelos donos do morro. Todas as facções criminosas do Rio, à
exceção das milícias (organizações militares e paramilitares que têm
dominado os morros e que estabelecem outras regras de conduta e outros
métodos punitivos), são temidas pelo castigo de arrancar da mulher os
cabelos e, com ele, a feminilidade e a vaidade. Um dos traficantes mais
procurados do estado, Anderson Rosa Mendonça, conhecido como Coelho,
ligado à A.D.A. (Amigos dos Amigos), é descrito na página de internet da
Polícia Civil fluminense como um bandido altamente perigoso, que
“costumava castigar os moradores que se envolvessem em confusão e
chegava a mandar raspar a cabeça das mulheres que brigam nos bailes
funk”.
"Os traficantes aplicam um castigo exemplar porque isso também serve para ‘educar’ a favela"
Julio Ludemir, escritor
Julio Ludemir, escritor
Dor silenciosa Desde a década de 80, um
número incalculável de mulheres no Rio de Janeiro passou pelo cruel
ritual de terem seus cabelos extirpados depois de serem julgadas pelo
Tribunal do Tráfico. Ao longo de três décadas, o sofrimento
delas tem sido silencioso para o restante da sociedade. Sua humilhação e
sua dor são expostos apenas dentro da comunidade, onde apanham e têm a
cabeça raspada no meio da rua, diante da plateia de moradores. Embora
abundantes, os casos não costumam chegar às autoridades. A Polícia Civil
do Rio de Janeiro, chefiada por uma mulher, a delegada Marta Rocha, não
tem estatísticas sobre o assunto. E até ela pouco soube dizer. Marta
afirmou já ter ouvido falar que as mulheres fluminenses são vítimas
frequentes desse tipo de castigo, mas desconhece casos e detalhes do
problema.
Raspar os cabelos femininos como forma de
punição não é uma invenção carioca. Em 1944, tão logo a França se viu
livre dos invasores alemães na Segunda Guerra Mundial, cerca de 20 mil
mulheres acusadas de terem colaborado, de alguma maneira, com os
nazistas tiveram seus cabelos raspados em praça pública, em sessões de
humilhação que incluíam também apedrejamentos e cusparadas da população
que assistia. A intenção era criar uma marca indelével. A vida dessas
francesas tornava-se quase insustentável em seu próprio país. A
dinâmica do que aconteceu no século passado é semelhante à da punição
que o tráfico emprega até hoje. “Aplica-se um castigo exemplar, no meio
da rua, porque isso também serve para ‘educar’ a comunidade”, afirma o
escritor Julio Ludemir, autor de Sorria, Você Está na Rocinha, publicado
pela Editora Record em 2004.
Os requintes de tortura aplicados à mulher considerada infratora variam.
Há surras, obrigação de andar pelada pela comunidade, pular de uma
ponte sobre o esgoto, entre outros. Há até mesmo agressões com cabos de
fuzil ou armas de paintball. Em dois vídeos gravados em janeiro e
espalhados pela internet, há uma amostra do tipo de sessão de tortura
que elas sofrem. As vítimas são duas mulheres. Em cada vídeo, uma delas
recebe dezenas de tiros de paintball, sem ter qualquer proteção na pele.
Marcadas por hematomas e tinta, ambas têm seus cabelos, longos,
totalmente cortados. Vozes no fundo pedem por mais crueldade. Outras,
advogam pelo fim das agressões. Em um dos vídeos, uma voz feminina
chega a sugerir que vai vender as mechas cortadas. As duas mulheres
suportam a dor e a vergonha como conseguem. Evitam reclamar ou se lamentar, o que aumentaria a carga do castigo.
Uma
fonte que conhecia as vítimas dos vídeos e preferiu não se identificar
afirmou que a agressão a elas aconteceu em Costa Barros, uma das áreas
mais violentas do Rio, na zona norte do município. Uma das mulheres
agredidas, que são primas, teria se envolvido com um traficante da
A.D.A. A namorada do criminoso, insatisfeita com a traição, espalhou na
boca de fumo que a amante dele tinha AIDS. Não houve exames, nem
conversa. “Uma apanhou porque teria a doença e a outra porque foi
cúmplice”, afirma quem acompanhou a situação. “E elas ainda saíram no
lucro. Se fosse um maluco ruim, ia matar as duas, porque é um negócio
muito sério espalhar a doença em um lugar onde ninguém transa de
camisinha.” De cabelos cortados rente ao couro cabeludo, elas foram expulsas da favela. Marie Claire não conseguiu localizá-las.
"Aqui, a vaidade delas é o cabelo. É mais fácil
pedir para elas fazerem dieta do que
para cortar o cabelo" José Summer, dono de agência de modelos
pedir para elas fazerem dieta do que
para cortar o cabelo" José Summer, dono de agência de modelos
A sessão de tortura de duas mulheres, moradoras de Costa Barros, no Rio, foi filmada e postada no Youtube, em janeiro.
Fonte: Mariana Sanches
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe seu Comentário...