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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

"Código Penal" de favelas cariocas castiga mulheres raspando seus cabelos.

André VieiraCabeças marcadas pelo tráfico:Nas favelas dominadas por facções criminosas, uma lei própria impera: mulher que trai o marido, briga, é homossexual ou faz qualquer coisa que desagrade o comando é condenada a ter o cabelo raspado. A cabelereira Silvia Regina Evangelista foi surrada e ficou careca a mando do ex-namorado, que cumpre pena por tráfico. (ENTENDA O CASO)

"Carlos Renato ficou surpreso porque a mulher
o denunciou por ter raspado a cabeça dela"
Jorge Veloso, delegado
As cenas eram fortes. Especialmente para uma garotinha de um ano de idade. A porta da casa foi arrombada. Duas mulheres e três homens entraram e arrastaram a mãe do bebê, Silvia Regina Evangelista, aos tapas e pontapés para fora de sua casa — deixando para trás a menina de olhinhos assustados. Silvia foi levada até um matagal na Favela do Arrastão, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Ali, foi surrada a pauladas e teve seus cabelos longos, lisos e pretos totalmente raspados. A sessão de tortura era a aplicação da pena prevista em uma espécie de “Código Penal” dos traficantes do Rio de Janeiro. Mulher que abandona o marido na cadeia é condenada a ser espancada e a ter os cabelos raspados. Os algozes dela eram: a ex-sogra, a ex-cunhada e três comparsas — todos agindo a mando do ex-namorado, Carlos Renato.


Ele ordenou a ação de dentro do Presídio Muniz Sodré, em Bangu, onde cumpre pena por tráfico de drogas. É acusado de ser integrante da facção criminosa Comando Vermelho. O crime contra Silvia foi o desfecho de uma relação que envolveu mais conflitos do que amor. O relacionamento durou dois anos, entre rupturas e reconciliações.
A gravidez aconteceu nesse conturbado contexto e Silvia não tem certeza de que Carlos Renato seja o pai da criança. Na versão dela, o envolvimento dele com o tráfico ocorreu durante o romance, depois que ele abandonou o mal remunerado emprego em um ferro-velho. Foi então que o comportamento do rapaz mudou. “Nos primeiros três meses, ele era carinhoso e fomos morar juntos. Depois, começou a se revelar. Ia para a rua e me deixava trancada em casa, chegava bêbado e queria me agredir”, diz Silvia. A prisão de Carlos Renato, pego em flagrante com drogas, teria sido o estopim da separação. Silvia diz que nunca quis ser mulher de bandido e que não era mais feliz com o namorado. “Fui visitá-lo três ou quatro vezes na cadeia. Da última vez, ele me tratou muito mal, começou a me xingar, discutimos. Eu estava grávida e quase perdi o bebê. Fiquei três dias no hospital. Depois disso, não quis mais saber dele, voltei para a casa da minha mãe”, afirma Silvia, que, ironicamente, trabalhava como cabeleireira antes de ter a cabeça raspada. Descontente com o abandono e disposto a “resolver” o assunto, Carlos Renato recorreu ao castigo aplicado pela própria mãe.
Denunciado por Silvia, ele demonstrou uma única consternação. “Carlos Renato ficou muito­ surpreso por ela ter procurado a polícia”, afirma o delegado Jorge Veloso, da 74a Delegacia de Polícia do Rio, em Alcântara. “Ele achou que ela ‘arquivaria’ a agressão, ficaria no âmbito do constrangimento e só. Jamais imaginava que a coisa tivesse essa repercussão, que ele fosse acusado de tortura e sequestro.”
O crime de Carlos Renato é bárbaro. E barbaramente corriqueiro nas favelas fluminenses. Há uma série de condutas que podem desencadear esse tipo de castigo em uma favela comandada pelo tráfico: traição (ou mesmo apenas suspeita de traição), rompimento de namoro, briga entre moradoras na favela, mulheres que visitam parentes em comunidades dominadas por quadrilhas rivais, briga de mulheres por um homem, homossexualidade feminina e qualquer outra coisa que possa ser feita por uma mulher e considerada inadequada pelos donos do morro. Todas as facções criminosas do Rio, à exceção das milícias (organizações militares e paramilitares que têm dominado os morros­ e que estabelecem outras regras de conduta e outros métodos punitivos), são temidas pelo castigo de arrancar da mulher os cabelos e, com ele, a feminilidade e a vaidade. Um dos traficantes mais procurados do estado, Anderson Rosa Mendonça, conhecido como Coelho, ligado à A.D.A. (Amigos dos Amigos), é descrito na página de internet da Polícia Civil fluminense como um bandido altamente perigoso, que “costumava castigar os moradores que se envolvessem em confusão e chegava a mandar raspar a cabeça das mulheres que brigam nos bailes funk”. 


"Os traficantes aplicam um castigo exemplar porque isso também serve para ‘educar’ a favela"
Julio Ludemir, escritor
Dor silenciosa Desde a década de 80, um número incalculável de mulheres no Rio de Janeiro passou pelo cruel ritual de terem seus cabelos extirpados depois de serem julgadas pelo­ Tribunal do Tráfico. Ao longo de três décadas, o sofrimento delas tem sido silencioso para o restante da sociedade. Sua humilhação e sua dor são expostos apenas dentro da comunidade, onde apanham e têm a cabeça raspada no meio da rua, diante da plateia de moradores. Embora abundantes, os casos não costumam chegar às autoridades. A Polícia Civil do Rio de Janeiro, chefiada por uma mulher, a delegada Marta Rocha, não tem estatísticas sobre o assunto. E até ela pouco soube dizer. Marta afirmou já ter ouvido falar que as mulheres fluminenses são vítimas frequentes desse tipo de castigo, mas desconhece casos e detalhes do problema.
Raspar os cabelos femininos como forma de punição não é uma invenção carioca. Em 1944, tão logo a França se viu livre dos invasores alemães na Segunda Guerra Mundial, cerca de 20 mil mulheres acusadas de terem colaborado, de alguma maneira, com os nazistas tiveram seus cabelos raspados em praça pública, em sessões de humilhação que incluí­am também apedrejamentos e cusparadas da população que assistia. A intenção era criar uma marca indelével. A vida dessas francesas tornava-se quase insustentável em seu próprio país­. A dinâmica do que aconteceu no século passado é semelhante à da punição que o tráfico emprega até hoje. “Aplica-se um castigo exemplar, no meio da rua, porque isso também serve para ‘educar’ a comunidade”, afirma o escritor Julio Ludemir, autor de Sorria, Você Está na Rocinha, publicado pela Editora Record em 2004.
Os requintes de tortura aplicados à mulher considerada ­infratora variam. Há surras, obrigação de andar pelada pela comunidade, pular de uma ponte sobre o esgoto, entre outros. Há até mesmo agressões com cabos de fuzil ou armas de paintball. Em dois vídeos gravados em janeiro e espalhados pela internet, há uma amostra do tipo de sessão de tortura que elas sofrem. As vítimas são duas mulheres. Em cada vídeo, uma delas recebe dezenas de tiros de paintball, sem ter qualquer proteção na pele. Marcadas por hematomas e tinta, ambas têm seus cabelos, longos, totalmente cortados. Vozes no fundo pedem por mais crueldade. Outras, advogam pelo fim das agressões. Em um dos vídeos­, uma voz feminina chega a sugerir que vai vender as mechas cortadas. As duas mulheres suportam a dor e a vergonha como conseguem. Evitam reclamar ou se lamentar, o que aumentaria a carga do castigo.
Uma fonte que conhecia as vítimas dos vídeos e preferiu não se identificar afirmou que a agressão a elas aconteceu em Costa Barros, uma das áreas mais violentas do Rio, na zona norte do município. Uma das mulheres agredidas, que são primas, teria se envolvido com um traficante da A.D.A. A namorada do criminoso, insatisfeita com a traição, espalhou na boca de fumo que a amante dele tinha AIDS. Não houve exames, nem conversa. “Uma apanhou porque teria a doença e a outra porque foi cúmplice”, afirma quem acompanhou a situação. “E elas ainda saíram no lucro. Se fosse um maluco ruim, ia matar as duas, porque é um negócio muito sério espalhar a doença em um lugar onde ninguém transa de camisinha.” De cabelos cortados rente ao couro cabeludo, elas foram expulsas da favela. Marie Claire não conseguiu localizá-las.
"Aqui, a vaidade delas é o cabelo. É mais fácil
pedir para elas fazerem dieta do que
para cortar o cabelo" José Summer, dono de agência de modelos
   Reprodução
A sessão de tortura de duas mulheres, moradoras de Costa Barros, no Rio, foi filmada e postada no Youtube, em janeiro.
Fonte: Mariana Sanches
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